O coelho na parede

No primeiro amanhecer de uma pequena viagem, fui até a varanda do lugar onde estava hospedada e meus olhos pararam na parede do prédio em frente.
A pintura estava descascada em alguns pontos, naturalmente castigada pelo tempo.
Fiquei olhando.
Entre as falhas da tinta, enxerguei nitidamente a figura de um coelho.
Um coelho.
Não precisei procurar muito, virar a cabeça para um lado ou forçar a imaginação. Para mim, ele estava ali, perfeitamente reconhecível.
E a primeira pergunta que me veio foi:
O que esse coelho quer me dizer?
Logo depois, outra:
O que eu preciso ouvir do universo neste momento?
Sei que alguém poderá dizer que era apenas uma parede descascada e que meus olhos encontraram uma figura conhecida em formas aleatórias.
Pode ser.
Mas também acredito que determinados acontecimentos, imagens ou encontros surgem em momentos tão particulares que acabam funcionando como convites à reflexão. Podemos chamá-los de coincidência, sincronicidade, intuição ou simplesmente de um daqueles instantes em que alguma coisa chama nossa atenção e nos faz olhar para dentro.
Naquela manhã, eu escolhi escutar o coelho.
E o orelhudo tinha bastante coisa para me dizer. Comecei pelas características que conhecia de seu simbolismo. O coelho costuma ser associado à fertilidade, à sensibilidade, à percepção, à rapidez e à capacidade de reagir diante do perigo.
Mas todo símbolo também pode nos levar a olhar para aquilo que existe do outro lado.
Um coelho é uma criatura atenta. Suas grandes orelhas percebem o que acontece ao redor. Suas pernas estão preparadas para uma fuga rápida. Para um animal que ocupa um lugar vulnerável na natureza, perceber o perigo e correr pode significar sobreviver.

Quando correr deixa de ser uma resposta ao perigo


E foi aí que alguma coisa fez sentido para mim.
Eu vinha vivendo, há bastante tempo, ligada no 220 volts.
Atenta.
Antecipando situações.
Percebendo problemas antes mesmo de saber se seriam realmente problemas.
Tentando preencher brechas.
Querendo encontrar soluções.
Como se, em algum lugar que eu não conseguia enxergar, houvesse sempre um predador prestes a aparecer.
Foi como se aquele coelho me dissesse:
Você sabe correr. Mas não precisa correr o tempo todo.
Não há predadores do tempo aqui.
Aquilo me atingiu de uma maneira inesperada.
Ahh, saibam meus queridos e queridas, eu confundi muitas vezes, estar preparada para a vida com estar permanentemente preparada para o pior.
E são coisas muito diferentes.
A capacidade de reagir quando necessário é valiosa. Foi útil em muitos momentos da minha história e certamente continuará sendo.
Mas viver em prontidão permanente cobra seu preço.
Nem toda preocupação precisa se transformar numa emergência.
Nem toda brecha precisa ser preenchida por mim.
Nem todo descontentamento ao meu redor exige uma providência minha. E, principalmente, nem tudo ao meu redor precisa estar em harmonia para que eu possa estar em paz.
Continuei olhando para o meu coelho.
E então pensei nas orelhas.
Quantas vezes eu quis falar, explicar, aconselhar, responder, encontrar uma saída, e quantas vezes parei verdadeiramente para ouvir?
Não somente os outros.
A mim mesma.
Penso que escutar a mim mesma significa reconhecer aquilo que ainda faz sentido para mim e aquilo que já não quero carregar. Perceber onde desejo colocar minha energia. Entender quando é hora de agir e quando é hora de simplesmente deixar as coisas seguirem seu curso.
Ouvir sem absorver tudo.
Acolher sem assumir tudo.
Amar sem acreditar que preciso consertar tudo.
As enormes orelhas daquele coelho começaram a ganhar outro significado.
E então me lembrei da fertilidade.
O coelho carrega há muito tempo essa simbologia. Mas, naquela manhã, fertilidade ganhou para mim um sentido que não tinha relação com gerar filhos.
Há fases da vida em que fertilidade já não significa gerar uma vida, mas continuar gerando vida em nós.
Uma ideia pode ser fértil.
Um projeto pode ser fértil.
Uma nova vontade pode ser fértil.
A curiosidade pode ser fértil.
A coragem de começar alguma coisa quando muitos imaginam que já deveríamos estar apenas administrando aquilo que construímos também pode ser uma forma de fertilidade.
E então percebi outra coisa.
Para criar, eu preciso de espaço.


É difícil ouvir uma ideia nova quando tudo dentro de nós está fazendo barulho.
É difícil desfrutar o presente quando a mente está procurando o próximo problema.
É difícil criar quando boa parte da nossa energia está ocupada tentando garantir que tudo e todos ao redor estejam bem.
Penso que eu nao preciso aprender a ser menos coelho.

Quando não é preciso deixar de ser coelho


Eu entendi naquele meu momento reflfexivo que, a mesma criatura que possui pernas poderosas para fugir também pode, quando não existe predador, permanecer quieta.
Observar.
Escutar.
Descansar.
E depois, quem sabe, criar.
Não sei se aquele coelho era uma mensagem do universo.
Também não preciso saber.
Sei apenas que, naquela manhã, uma parede marcada pela ação do tempo me ofereceu uma imagem e, através dela, fiz perguntas que precisava fazer a mim mesma.
Pode ter sido sincronicidade.
Pode ter sido minha imaginação.
Pode ter sido uma simples parede precisando de uma boa demão de tinta.
Mas a reflexão que nasceu dali foi real.
Desde então, fiquei com uma pergunta que pretendo carregar comigo:
Estou correndo porque existe um perigo, ou porque me acostumei a correr?
Encontrei aquela imagem justamente numa parede transformada pelo tempo.
E percebi ali mais uma pequena alquimia.
Às vezes olhamos para aquilo que o tempo descascou e enxergamos desgaste.
Naquela manhã, eu enxerguei um coelho.
E ele me lembrou que ainda há muito para escutar, muito para criar e, principalmente, momentos em que posso simplesmente parar de correr.
O orelhudo continua na parede.
Mas algumas das lições vieram comigo.

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