Dois dias depois de encontrar um coelho numa parede descascada, encontrei uma casca de banana no chão.
Pelo visto, minhas férias estavam decididas a me oferecer grandes reflexões através de elementos pouco sofisticados.
Eu caminhava tranquilamente, passando pelas inúmeras esplanadas dos restaurantes espalhados pela cidade, quando a vi.
Ali estava ela.
Uma casca de banana já meio escurecida, com aquela aparência pouco convidativa de quem provavelmente estava no chão havia algum tempo.
Estava justamente numa área de passagem, próxima às mesas onde algumas pessoas estavam sentadas.
Não pensei duas vezes.
Comecei a empurrá-la com os pés.
Minha intenção era levá-la para um canto, rente à parede que separava o estabelecimento da calçada, onde ninguém pudesse pisar nela. E não sei por que razão aquela criatura resolveu oferecer alguma resistência. 😂
Empurra daqui.
Arrasta dali.
Mais um pouquinho.
Eu estava concentradíssima na operação quando percebi que havia olhos me acompanhando. Algumas pessoas sentadas nas mesas pareciam me observar atentamente, a senhora turista empenhada numa batalha particular contra uma casca de banana. 😂
Não me lembro de nenhum rosto.
Não sei se estavam admiradas, curiosas ou pensando:
“Mas o que essa mulher está fazendo?”
Também não me importei.
Continuei minha pequena operação até conseguir colocar a casca num lugar onde, pelo menos, já não representasse um risco para quem passasse por ali.
Pronto.
Senti um alívio enorme.
E segui andando.
Não olhei para trás.
Não tive curiosidade de descobrir se alguém continuava me observando ou se minha intervenção havia provocado admiração, estranhamento ou deboche.
A casca estava fora do caminho.
Para mim, aquilo bastava.
Quando uma casca de banana deixa de ser só uma casca
Só depois pensei que aquele gesto aparentemente insignificante dizia alguma coisa sobre mim.
Porque não era a primeira vez.
Tenho o hábito de retirar do caminho coisas que possam provocar a queda de alguém.
Pode ser uma casca de fruta, um pedaço de plástico ou qualquer outro objeto que tenha sido jogado no chão ou simplesmente levado até ali pelo vento.
Quando percebo alguma coisa que possa fazer alguém tropeçar ou escorregar, meu pensamento vai imediatamente para a pessoa que virá depois.
Não sei quem será.
Pode ser uma criança.
Uma pessoa idosa.
Alguém distraído.
Ou qualquer um de nós num daqueles segundos em que o pé chega antes dos olhos.
E então, se posso afastar aquilo sem dificuldade, afasto.
Não faço isso esperando agradecimento.
A pessoa que não tropeçar provavelmente jamais saberá que passei por ali.
Aliás, eu pensei, ninguém mais vai tropeçar.
Pode ser que aquela casca de banana permanecesse no mesmo lugar até alguém responsável pela limpeza retirá-la.
Mas eu a vi. E, depois que vi, não consegui simplesmente passar por cima e continuar andando.
Curiosamente, dois dias antes, o coelho na parede havia me levado a pensar sobre minha tendência de viver em estado de alerta, antecipando problemas, querendo preencher brechas e tentando encontrar soluções para aquilo que acontece ao meu redor.
Agora aparecia uma casca de banana.
Por um instante, as duas coisas poderiam parecer contraditórias.
Afinal, eu não estava outra vez tentando evitar um problema antes mesmo que ele acontecesse?
Estava.
Mas havia uma diferença.
A casca estava ali.
O risco era pequeno, mas concreto.
E a solução estava literalmente ao alcance dos meus pés.
Não precisei carregar a casca comigo.
Não precisei descobrir quem a jogou. Não precisei procurar o gerente do restaurante, investigar responsabilidades ou permanecer ali garantindo que nenhuma outra casca aparecesse. 😂
Empurrei-a para um lugar seguro e continuei minha caminhada.

Foi então que lembrei de uma expressão que certa vez usaram para me definir: carpinteira do universo. A referência vinha de Carpinteiro do Universo, canção de Raul Seixas.
Na época, achei curioso alguém me enxergar daquela maneira.
Com o passar dos anos, porém, comecei a perceber que havia alguma verdade naquela definição.
Tenho mesmo certa tendência a andar pela vida com um martelo imaginário na mão. 😂
Vejo alguma coisa solta e já penso se não seria o caso de dar uma ajeitadinha.
Um preguinho aqui.
Outro acolá.
Uma tentativa de evitar que alguma coisa desabe na cabeça de alguém.
O problema é que ser carpinteira do universo em tempo integral é uma função para a qual ninguém me contratou. E, pensando bem, nem seria saudável aceitar o cargo. 😂
Há situações que não me pertencem.
Há problemas que não posso resolver.
Há pessoas cujos caminhos não posso organizar.
E há acontecimentos diante dos quais minha única possibilidade é reconhecer que não tenho controle.
Mas isso não significa que eu precise passar indiferente por tudo.
Entre querer consertar o mundo inteiro e não fazer nada por ninguém existe um espaço enorme.
Penso que é nesse espaço que mora o cuidado.
Um cuidado que não precisa de plateia.
Que não pergunta quem será beneficiado.
Que não espera reconhecimento.
E que também não exige que eu permaneça responsável pelo que acontecerá depois.
Eu tiro a casca.
E sigo andando. Quanto mais penso nisso, mais percebo que a questão não é abandonar a minha vontade de cuidar.
Essa vontade também faz parte de mim.
A questão é aprender sobre o tamanho do meu “martelo”.
Há momentos em que ajudar alguém exigirá presença, tempo e dedicação. Em outros, será alguma coisa tão pequena que a pessoa beneficiada jamais saberá que existimos.
E há situações em que o gesto mais sensato será guardar o martelo e reconhecer que aquela obra não é nossa.
Naquele dia, porém, havia uma casca de banana no caminho.
Eu podia fazer alguma coisa.
Fiz.
E fui embora um pouco mais leve.
Engraçado pensar que saí de férias e, em poucos dias, uma parede descascada e uma casca de banana conseguiram me fazer pensar sobre coisas que provavelmente passariam despercebidas em outras circunstâncias.
O coelho me lembrou que eu não preciso correr o tempo inteiro.
A casca me lembrou que parar de correr não significa deixar de perceber o caminho.
Posso continuar atenta.
Posso continuar me importando.
Posso fazer alguma coisa quando ela estiver verdadeiramente ao meu alcance.
Só não preciso transformar cada problema que encontro numa obra sob minha responsabilidade.
Posso ajudar sem carregar.
Prego o preguinho.
Guardo o martelo.
E sigo caminhando.
