A Cartomante

Hoje, as cartas de tarot são amplamente divulgadas, estudadas e encontradas até nas redes sociais. Mas, há cerca de cinquenta anos, pelo menos no universo em que eu vivia, pouco ou raramente se ouvia a palavra tarot.
Lembro-me muito bem das minhas tias sussurrando ao ouvido de minha mãe:
Fui a uma cartomante.
E minha mãe respondia prontamente:
E aí, você gostou?
Minha avó também, de vez em quando, visitava a tal Dona Terezinha.
E parecia levar aquelas consultas muito a sério.
Ela ia e voltava com um certo ar de suspense, como se trouxesse consigo informações que não deveriam ser reveladas tão facilmente.
Acho que, por três ou quatro vezes, eu fui com ela. Não me lembro do caminho, nem do bairro onde Dona Terezinha morava. Entretanto, alguns detalhes daquela casa permaneceram intactos na minha memória.
Lembro-me da antessala cor-de-rosa.
Das cortinas verde-oliva, transparentes.
Das cadeiras onde eu esperava.
Eu era tão pequena que ainda balançava as pernas enquanto permanecia sentada.
Às vezes, um dos meus tios fazia o papel de motorista da minha avó e preferia esperar do lado de fora. Eu ficava ali dentro, esperando.
O tempo da consulta não me parecia longo demais. Talvez porque eu me distraísse observando o relógio na parede e ouvindo o seu insistente:

tic-tac… tic-tac… tic-tac…

Não tenho lembranças do rosto de Dona Terezinha. O que permaneceu comigo foi muito mais a atmosfera daquele lugar e o mistério que parecia existir atrás da porta que separava a antessala do cômodo onde ela atendia.
Quando minha avó saía de lá, eu tentava esticar o pescoço para enxergar alguma coisa.
Queria ver a cartomante.
Queria descobrir o que havia naquele outro lado.
Mas a porta se fechava e o mistério continuava inteiro.
Naquela época, eu não fazia ideia de que, muitos anos depois, seria eu quem estaria sentada diante de um baralho, tentando compreender a linguagem das cartas.

A estranha familiaridade com as cartas

Os anos passaram.
Já adolescente, comecei a olhar para as cartas do baralho de uma maneira diferente.
Não era mais somente curiosidade.
Eu sentia uma estranha familiaridade com os naipes, os números e as figuras da corte.
Ninguém me incentivou a estudar cartomancia. Na verdade, eu nem sabia onde alguém poderia estudar aquilo naquela época.
A vida seguiu.
Quando eu tinha por volta de vinte e um ou vinte e dois anos, passei diante de uma livraria que parecia vender livros e artigos relacionados ao universo místico.
Entrei por curiosidade.
Foi então que encontrei um pequeno livro cuja capa trazia uma ilustração do naipe de copas do baralho comum.
Comprei o livro. E foi então que aconteceu algo que até hoje considero curioso.

Quando as cartas começaram a falar comigo

À medida que lia os significados atribuídos às cartas, fui tomada por uma sensação difícil de explicar.
Muitas daquelas interpretações me pareciam familiares.
Algumas eu tinha a impressão de já conhecer.
Mas de onde?
Eu nunca havia estudado cartomancia.
Não tinha lido outros livros sobre o assunto.
Ninguém havia me ensinado.
Não tenho uma resposta definitiva para isso.
Talvez justamente por essa razão aquela experiência tenha permanecido comigo por tantos anos.
Com o passar do tempo, percebi que nem toda familiaridade precisa encontrar uma explicação imediata.
Há conhecimentos que adquirimos conscientemente, pelo estudo e pela prática, e há impressões que simplesmente despertam a nossa curiosidade e nos fazem querer compreender mais.
Em vez de procurar uma resposta extraordinária para aquilo que senti naquele dia, preferi seguir a pergunta.
Creio que tenha sido justamente essa pergunta que me levou a estudar as cartas com mais atenção nos anos seguintes.
Aos poucos, porém, fui percebendo que conhecer o significado de cada carta era somente o começo.
Uma leitura não acontecia carta por carta, como se cada uma existisse isoladamente. Era preciso observar o conjunto, perceber as combinações, prestar atenção à posição em que apareciam e compreender a história que começava a se formar diante de mim.
Foi assim que a prática começou a transformar conhecimento em leitura.
E minha avó teve um papel muito especial nesse aprendizado.
Depois da primeira vez que li as cartas para ela, aconteceu algo que ainda hoje me faz sorrir: minha avó passou a querer consultar as cartas comigo.
A mesma avó que, anos antes, me levava à casa de Dona Terezinha e desaparecia atrás daquela porta misteriosa agora se sentava diante de mim para uma leitura.
No começo, eu ficava um pouco inibida.
Afinal, era minha avó. E ela levava cartomancia a sério.
Mas, à medida que aquelas leituras se repetiam, fui perdendo a inibição e ganhando segurança. Aprendi a observar melhor as cartas, a confiar mais na leitura do conjunto e a perceber nuances que, no início, poderiam passar despercebidas.
A prática foi me ensinando aquilo que nenhum significado decorado conseguiria ensinar sozinho.
Às vezes penso naquela menina sentada na antessala cor-de-rosa, balançando as pernas e tentando descobrir o que acontecia atrás da porta.
Ela não conseguiu ver Dona Terezinha.
Mas, anos depois, a própria avó acabaria encontrando outra cartomante muito mais perto de casa.
Era a neta.
O tarot só entrou na minha vida algum tempo depois, quando eu tinha aproximadamente vinte e cinco anos.
Foi outro encantamento.
Fiquei fascinada pelas imagens tradicionais das lâminas, pelos símbolos e pela quantidade de histórias que pareciam existir dentro de cada figura.
Com o tempo, fui estudando, praticando e me familiarizando também com aquela linguagem.
Os anos passaram e o tarot se tornou muito mais conhecido. A própria palavra cartomante, tão presente nas lembranças da minha infância, começou a dividir espaço com outras denominações, especialmente taróloga.
Ainda assim, nunca abandonei meu carinho pelo velho baralho comum.
Algumas pessoas ligadas ao tarot gostam de chamá-lo de “baralho profano”. Eu, particularmente, nunca gostei dessa denominação.
Para mim, as cartas não precisam disputar importância umas com as outras. Cada sistema possui sua história, sua linguagem e a relação particular que cada pessoa desenvolve com ele.

O que permaneceu depois do encantamento

Hoje tenho uma coleção de tarots.
E um único baralho comum.
Ao longo da vida, tive talvez quatro ou cinco deles.
Confesso que tenho dificuldade em me desfazer dos baralhos que me acompanharam por muito tempo. Existe algo afetivo nessa relação, como acontece com tantos objetos que atravessam diferentes fases da nossa vida.
Mas também aprendi que renovar faz parte do caminho.
Penso que exista uma pequena alquimia nisso.
Guardamos aquilo que ainda conversa conosco.
Agradecemos aquilo que cumpriu o seu tempo.
E abrimos espaço para o que ainda está por chegar.
Quando olho para trás, percebo que minha história com as cartas não começou quando comprei aquele pequeno livro, nem quando o tarot entrou na minha vida.
Ela começou muito antes.
Começou nas conversas sussurradas das minhas tias.
No interesse da minha mãe.
Nas visitas da minha avó à Dona Terezinha.
Na antessala cor-de-rosa.
Nas cortinas verde-oliva.
Nas minhas pernas de menina balançando sobre a cadeira.
E naquele relógio marcando o tempo enquanto, do outro lado de uma porta, acontecia alguma coisa que eu ainda não conseguia compreender.
Talvez seja por isso que a palavra cartomante continue despertando em mim uma sensação diferente.
Antes de fazer parte da minha vida como prática, ela já habitava o meu imaginário.
Primeiro veio o mistério.
Depois, a curiosidade.
Mais tarde, o estudo e a prática.
E, muitos anos depois, consigo perceber que aquela porta que tanto despertava minha curiosidade na infância nunca esteve completamente fechada.
De alguma maneira, eu passei por ela.
Acredito que os caminhos místicos sejam exatamente assim: começam com uma curiosidade, atravessam uma porta quase fechada e, quando percebemos, já nos acompanham por toda uma vida. E, no meu caso, esse caminho também encontrou uma maneira de continuar através das minhas filhas.
Ao longo dos anos, compartilhei com elas o que aprendi sobre a leitura das cartas. Hoje, esse conhecimento faz parte das nossas conversas, mas não somente como algo que transmiti a elas. Também aprendo com suas observações, com as interpretações que fazem e com as perguntas que surgem quando olhamos para uma mesma carta por perspectivas diferentes.
Quando eu era menina, esperava minha avó sair da sala de Dona Terezinha, curiosa para descobrir o que acontecia atrás daquela porta.
Hoje, quando me sento com minhas filhas para conversar sobre as cartas, percebo que aquela curiosidade atravessou o tempo e encontrou novas vozes.

O que começou como um mistério da minha infância tornou-se um conhecimento que compartilhamos entre gerações.

E, entre uma carta, uma conversa e uma xícara de café, essa história continua sendo escrita. 

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