O meu climatério, ou período que antecedeu a menopausa, começou por volta dos meus 40 anos.
Na época, confesso, aquelas oscilações hormonais me pareciam uma espécie de penitência. Elas me acompanharam por longos 15 anos, até eu finalmente entrar na menopausa, aos 55. Mas essa parte da história ficará para outro texto.
Durante o climatério, meu corpo parecia um cadinho fervendo.
E não somente pelos intensos calores que surgiam do nada, mesmo quando estava frio. Eu também sentia uma espécie de tremedeira por dentro, seguida por uma fraqueza louca que chegava de repente, sem pedir licença.
No meio daquela balbúrdia hormonal, eu tentava contornar a situação firmando o pensamento e repetindo para mim mesma:
É TPM, é TPM… vai passar, vai passar.
E de fato passava.
Por três ou quatro dias.
Então, num piscar de olhos, lá estava eu menstruando novamente. Houve meses em que isso chegou a acontecer três vezes, sendo que, antes de toda aquela revolução começar, meu ciclo normalmente era de aproximadamente 28 dias.
Quando meu corpo virou um cadinho fervendo

Não, minhas queridas e queridos, eu não tinha cistos nos ovários e, segundo os médicos que consultei naquela época, não havia nada de anormal nos exames.
Confesso que também não percorri uma romaria de consultórios. Consultei dois ou três profissionais, entre médicos e médicas, e a orientação que recebi foi tentar controlar aqueles ciclos com pílulas anticoncepcionais.
Experimentei algumas das marcas que me foram receitadas, mas não me adaptei. Sentia tonturas e enjoos e acabava desistindo. Em outra ocasião, procurei orientação em uma farmácia e passei a usar outra pílula indicada pelo farmacêutico.
Isso quando eu me lembrava de tomá-la. 😂
Vocês conhecem aquele famoso bordão: “A vida começa aos quarenta”?
Se começa aos quarenta, eu não sei. Só sei que, depois dos meus quarenta, passei a olhar para o meu próprio corpo de outra maneira.
Naquela época, comecei a perceber a enorme influência que as oscilações hormonais podiam exercer sobre a maneira como eu me sentia. Havia dias em que eu quase os considerava meus amigos; em outros, pareciam meus piores inimigos.
Muitos anos depois, fui compreender melhor uma coisa que naquela época eu conhecia principalmente através do meu próprio corpo: o climatério não segue o mesmo roteiro para todas as mulheres.
Hoje sabemos que os sintomas associados à transição para a menopausa podem variar bastante em intensidade, duração e combinação. Diretrizes médicas atuais recomendam justamente que o cuidado seja individualizado e adaptado às circunstâncias e aos sintomas de cada pessoa.
Em outras palavras: não existe uma única experiência chamada climatério.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais respostas simples demais para uma experiência tão complexa mereçam um pouco da nossa desconfiança.
Quando o corpo não consulta a agenda
Há ainda uma parte dessa história sobre a qual penso muito hoje.
Minha mãe e minha avó viveram essa fase em outros tempos e em circunstâncias diferentes das minhas. Isso não significa que tenham tido vidas mais fáceis.
O trabalho doméstico nunca foi sinônimo de descanso. Além disso, mulheres sempre trabalharam no campo, em fábricas, no comércio, em casas de outras famílias, em negócios próprios e em tantos outros lugares.
Não faria sentido, portanto, romantizar o passado.
Mas hoje muitas mulheres atravessam o climatério enquanto precisam continuar funcionando normalmente em ambientes profissionais que nem sempre permitem que o corpo dite o ritmo.
Uma onda de calor pode chegar diante de um computador, durante uma reunião, atendendo um cliente, dirigindo, dentro de uma cozinha, numa fábrica, num hospital ou durante um trabalho fisicamente exigente.
O corpo não consulta a agenda antes de resolver ferver.
E a mulher continua ali.
Cumprindo horário.
Trabalhando.
Cuidando da família.
Pagando contas.
Tentando dormir.
E, muitas vezes, tentando entender o que está acontecendo consigo mesma.
É nesse ponto que uma recomendação aparentemente simples como “procure orientação profissional” pode encontrar uma realidade muito mais complicada.
Quando o cuidado também depende das circunstâncias
Nem todas as mulheres têm as mesmas possibilidades de procurar ajuda.
Para algumas, conseguir uma segunda opinião, consultar um especialista ou ter acesso rápido a determinados cuidados pode ser relativamente simples.
Para outras, faltar ao trabalho significa perder dinheiro. Uma consulta particular não cabe no orçamento. O atendimento disponível pode demorar. Ou talvez aquela mulher já tenha procurado ajuda anteriormente e saído da consulta com a sensação de que seus sintomas foram minimizados.
Isso não significa que profissionais de saúde, de maneira geral, não se preocupem com o climatério. Muitos fazem um trabalho cuidadoso e atento.
Mas também não significa que as dificuldades relatadas por tantas mulheres devam ser ignoradas.
É significativo que as próprias diretrizes britânicas atuais apontem a equidade dos serviços e o acesso a profissionais com conhecimento especializado em menopausa entre os desafios para que as recomendações sejam colocadas em prática. A British Menopause Society, por sua vez, defende que todas as mulheres tenham acesso a informações corretas e que os profissionais de saúde possuam conhecimentos básicos sobre menopausa e saibam encaminhar para apoio especializado quando necessário.
Isso me leva a uma questão que considero importante:
Dizer que cada mulher merece um cuidado individualizado é fundamental. Mas esse cuidado também precisa estar ao alcance dela.
Caso contrário, corremos o risco de transformar algo que deveria ser individualizado em privilégio de quem consegue pagar por ele.
E é justamente nesse espaço, entre aquilo que uma mulher sente e o cuidado que consegue alcançar, que soluções milagrosas podem encontrar terreno fértil.
Entre o silêncio e o excesso de respostas
Hoje temos acesso a muito mais informação sobre climatério e menopausa do que as gerações anteriores tiveram.
Isso é uma conquista.
Assuntos que durante muito tempo ficaram restritos a conversas entre mulheres ou sequer eram mencionados agora podem ser discutidos abertamente.
Mas informação também virou mercado.
Basta algum tempo nas redes sociais para encontrarmos dietas, suplementos, fórmulas, protocolos e métodos apresentados como resposta para uma fase que pode se manifestar de maneiras muito diferentes.
“O segredo definitivo da menopausa em sete passos.”
Exagero meu, evidentemente.
Mas nem tanto. 😂
No meio de tantas promessas, imagino uma mulher cansada, talvez sem dormir direito, tentando trabalhar normalmente, lidando com ondas de calor ou outras mudanças no corpo e se perguntando:
Mas afinal, o que eu preciso?
Essa talvez seja uma pergunta muito mais importante do que qualquer promessa de solução universal.
Porque o que funciona bem para uma mulher pode não ser apropriado para outra. Mesmo tratamentos reconhecidos precisam ser discutidos considerando benefícios, riscos, sintomas, preferências e circunstâncias individuais. É exatamente por isso que as recomendações atuais enfatizam decisão compartilhada e cuidado personalizado.
Talvez, entre o silêncio de outras gerações e o excesso de respostas prontas da nossa, ainda estejamos aprendendo algo muito simples:
ouvir cada mulher.
O que as mulheres sabiam e contavam umas às outras

Eu não me lembro de minha avó ou de minha mãe se referirem ao climatério com grandes dramas.
Minha avó, uma virginiana elegante e ponderada nas palavras, certamente não era mulher acostumada a discutir assuntos íntimos no meio da sala de visitas.
Minha mãe, uma canceriana que não tinha papas na língua, era exatamente o contrário. Gostava de detalhar determinados assuntos e sempre foi, à sua maneira, uma mulher avançada para o seu tempo.
Hoje se fala de tudo e mais um pouco nas redes sociais e tenho para mim que, se minha mãe fosse viva, ela seria uma influencer famosa.
Disso eu não tenho muitas dúvidas. 😂
Mas havia uma recomendação que atravessava gerações entre aquelas duas mulheres que eu tanto amava: a famosa gemada com ovos de pata e vinho tinto fervido.
Era uma dessas receitas antigas de família, da época em que nossas mães e avós recorriam ao que conheciam e tinham à mão.
Fervia-se o vinho, e diziam elas que era para evaporar o álcool, esperava-se esfriar um pouco e então ele era misturado à gemada.
Não estou, evidentemente, receitando a gemada da minha avó para ninguém.
Também não estou sugerindo que os conhecimentos de antigamente fossem melhores do que os recursos médicos disponíveis hoje.
Estou contando como determinadas mulheres da minha família lidavam com fases e desconfortos da vida utilizando os conhecimentos, costumes e recursos que tinham ao alcance.
E é justamente aí que os ovos de pata me levam a uma lembrança que, até hoje, me faz sorrir.
Certa vez, fui comprá-los em uma chácara e me deparei com uma cena que jamais esqueci:
a dona da chácara estava literalmente chocando um ovo de pata entre os seios.
Sim, minhas queridas e queridos.
Entre os seios. 😂
Mais tarde fiquei sabendo, por alto, que a experiência havia dado certo e o patinho nascera.
Quando isso aconteceu, porém, eu já não morava tão perto dali e comprava meus ovos de pata em outra cidade, de outro estado.
E pensar que tudo começou com o climatério…
Quando uma lembrança puxa a outra
Penso que são essas pequenas coisas que ativam nossas memórias.
Puxamos um fio e, quando percebemos, vieram junto a mãe, a avó, uma gemada, uma chácara e até um patinho.
Mas talvez exista alguma coisa importante nesse emaranhado.
Cada geração de mulheres tentou compreender o próprio corpo com a linguagem, os conhecimentos e os recursos que estavam disponíveis em seu tempo.
Hoje temos muito mais informação, mais pesquisa e mais possibilidades de tratamento. E isso precisa ser valorizado.
Ao mesmo tempo, ainda temos mulheres tentando ser ouvidas, mulheres sem acesso às mesmas possibilidades de cuidado e mulheres procurando respostas em meio a uma quantidade imensa de informações e promessas.
Talvez o avanço não esteja em substituir a receita da avó por outra receita universal, agora embalada numa linguagem moderna.
Talvez esteja justamente em compreender que não existe uma receita única.
Cada mulher atravessa essa fase dentro de um corpo, de uma história e de circunstâncias que são suas.
O meu climatério foi assim.
O de minha mãe teve outra história.
O de minha avó pertenceu a outro tempo.
E o de cada mulher que chegar até aqui poderá ser completamente diferente.
No fim das contas, é tudo ingrediente do mesmo cadinho.
Mas cada cadinho ferve à sua maneira.
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Fontes consultadas
NICE — Menopause: identification and management (NG23)
Diretriz clínica britânica sobre identificação e manejo da perimenopausa e menopausa, incluindo cuidado individualizado, sintomas e opções de tratamento.
British Menopause Society — Vision for menopause care in the UK
Documento que defende acesso a informação correta, profissionais capacitados e cuidado de qualidade para todas as mulheres. A versão disponível atualmente foi revisada em 2024.
Barber K, Charles A. — Barriers to Accessing Effective Treatment and Support for Menopausal Symptoms (2023)
Estudo qualitativo britânico com 20 mulheres, 30 médicos de família e 10 ginecologistas. Encontrou barreiras em diferentes etapas do cuidado, incluindo experiências negativas anteriores, mulheres que relataram ter seus sintomas minimizados, dificuldades no reconhecimento de alguns sintomas e diferenças entre profissionais na abordagem da menopausa.
Hirst JA et al. — Inequalities in hormone replacement therapy prescribing in UK primary care: population based cohort study (2025)
Grande estudo populacional com quase 2 milhões de mulheres de 40 a 60 anos, utilizando registros da atenção primária na Inglaterra. Encontrou diferenças na prescrição de terapia hormonal relacionadas à condição socioeconômica, grupo étnico e região geográfica.
