Costumamos dizer que a vida é feita de fases. E talvez seja mesmo. Há períodos em que parecemos feitas de fogo; outros em que somos quase inteiramente emoção. Há tempos de decisões, cortes e escolhas e, mais adiante, momentos em que sentimos necessidade de fincar os pés no chão e construir alguma coisa mais sólida.
Foi pensando nessas diferentes mulheres que podemos ser ao longo de uma única vida que me vieram à mente os quatro Ases do baralho.
Paus, Copas, Espadas e Ouros.
Quatro naipes. Quatro elementos. Quatro forças que, de alguma maneira, consigo reconhecer em diferentes momentos da trajetória de uma mulher.
Não como uma regra, muito menos como uma previsão. Gosto de pensar neles apenas como símbolos, um pequeno jogo de analogias para observar aquilo que fomos, aquilo que somos e, quem sabe, aquilo que ainda podemos nos tornar.
Ás de Paus, o fogo: ♣️
Acredito que seja fácil encontrar o Ás de Paus na adolescência.
Há fogo por todos os lados.
É o tempo da inquietação, das primeiras grandes vontades, da urgência de descobrir o mundo e também de descobrir quem somos dentro dele. Queremos experimentar, contestar, começar. Nem sempre sabemos para onde estamos indo, mas alguma coisa já arde por dentro dizendo que precisamos ir.
É o fogo do impulso, da coragem e também da imprudência.
Mas seria injusto deixar o Ás de Paus preso à adolescência.
Ele reaparece cada vez que alguma coisa volta a nos entusiasmar. Pode surgir quando mudamos de profissão, começamos um projeto, fazemos uma viagem há muito adiada, nos apaixonamos por uma ideia ou simplesmente acordamos certa manhã com uma vontade inesperada de começar outra vez. Há mulheres que descobrem novos fogos justamente quando todos imaginavam que elas já deveriam estar satisfeitas em contemplar as cinzas.
Ás de Copas, a água: ♥️
Se o fogo nos empurra para o mundo, a água nos ensina aquilo que o mundo provoca dentro de nós.
Por isso, quando penso na juventude, penso também no Ás de Copas.
É a época das grandes emoções, das paixões, dos sonhos compartilhados, das amizades que parecem eternas, das expectativas que depositamos nos outros e das primeiras experiências capazes de transbordar aquilo que até então cabia confortavelmente dentro de nós.
Copas fala de afeto, sensibilidade, vínculos e entrega.
Mas a água também retorna.
Retorna quando precisamos nos permitir sentir uma perda, quando redescobrimos a ternura, quando aprendemos a receber cuidado, quando nos reconciliamos com alguma parte de nossa história ou quando percebemos que amadurecer não significa endurecer.Talvez uma das grandes aprendizagens da maturidade seja justamente essa: continuar tendo água suficiente para sentir sem permitir que qualquer correnteza nos carregue.
Ás de Espadas, o ar: ♠️
Então chega um momento em que sentir já não basta.
É preciso pensar.
Escolher.
Decidir.
E, algumas vezes, cortar.
Vejo no Ás de Espadas muito da vida adulta. É quando começamos a compreender que toda escolha cria também uma renúncia. Trabalho, família, relacionamentos, responsabilidades, limites, e a vida vai nos pedindo decisões cada vez menos teóricas.
Espadas pode parecer um naipe duro, mas há uma liberdade imensa na clareza. É a força que nos ajuda a separar desejo de realidade, expectativa de fato, culpa de responsabilidade. E esse Ás também não pertence a uma única idade. Geralmente, algumas das Espadas mais importantes de nossa vida só aparecem na maturidade, quando finalmente aprendemos a dizer:
“Isso eu quero.”
“Isso eu não quero mais.”
“Isso me pertence.”
“Isso não preciso continuar carregando.”
Há cortes que ferem.
E há cortes que libertam.
Ás de Ouros, a terra: ♦️
Depois de tanto fogo, água e ar, chegamos à terra.
Durante muito tempo, eu poderia ter associado o Ás de Ouros apenas a dinheiro ou prosperidade. Hoje gosto de enxergá-lo de maneira mais ampla.
Terra é aquilo que sustenta.
É o corpo que habitamos, a casa que construímos, o trabalho que realizamos, os recursos que administramos, a rotina que mantemos e a realidade concreta que nasce das nossas escolhas.
Talvez por isso eu associe Ouros à maturidade.
Não porque uma mulher madura tenha necessariamente alcançado estabilidade ou segurança. A vida não distribui suas cartas dessa maneira.
Mas porque chega uma época em que começamos a perguntar com mais frequência:
Onde vale a pena colocar minha energia?
Algumas coisas que pareciam indispensáveis perdem importância. Outras, antes pequenas, tornam-se preciosas.
Paz pode valer mais que aparência.
Tempo pode valer mais que aprovação.
Uma casa acolhedora pode valer mais que uma casa impressionante.
E a possibilidade de escolher como queremos viver pode se tornar uma das maiores riquezas que possuímos.
Mas nenhuma mulher é feita de um único Ás
Foi aí que minha brincadeira com os quatro naipes começou a fazer mais sentido.
Porque não passamos necessariamente de Paus para Copas, depois para Espadas e finalmente para Ouros como quem atravessa quatro portas e nunca mais olha para trás.
Nós voltamos.
Misturamos.
Recomeçamos.
Podemos estar vivendo um período de Terra e, de repente, alguma coisa acender novamente o Fogo.
Podemos tomar uma decisão com a clareza de Espadas e descobrir, logo depois, que precisaremos de toda a Água de Copas para lidar com aquilo que a decisão provocou.
Podemos ter uma vida aparentemente construída e perceber que chegou a hora de começar outra coisa. E podemos chegar à maturidade carregando os quatro Ases nas mãos.
O fogo para ainda desejar.
A água para continuar sentindo.
O ar para discernir.
A terra para transformar intenção em realidade.
Na minha opinião, amadurecer é não deixar de ter fases.
É compreender que temos Ases.
E aprender, finalmente, que não existe uma única carta capaz de definir a mulher que somos.
Somos feitas de muitas partidas.
E enquanto houver cartas na mesa, sempre poderá existir um novo começo.
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