Eu havia acabado de publicar um texto sobre ancestralidade.
Depois de passar algum tempo diante do computador, levantei-me da cadeira para esticar as pernas e as costas e resolvi sair um pouco.
O dia começava a anoitecer.
Olhei para o céu.
Entre as nuvens, duas formas enormes me pareceram asas abertas.
E, sem que eu soubesse exatamente por quê, pensei imediatamente na minha bisavó materna.
É fascinante perceber como a matemática de um exame de DNA pode parecer pequena diante daquilo que o afeto e a convivência são capazes de transmitir.
No meu caso, a ancestralidade indígena aparece no resultado do exame com modestos 2%.
Chega a ser curioso.
Sou brasileira, nasci no Brasil e, no entanto, diante das várias estimativas apresentadas pelo exame, aqueles 2% poderiam facilmente passar despercebidos.
Comigo aconteceu o contrário.
Eles me fizeram pensar ainda mais sobre aquilo que um exame de DNA consegue medir e, principalmente, sobre aquilo que ele não consegue.
A biologia nos dá os tijolos, mas é o convívio, o afeto e a infância que constroem nossa casa interna.
Aquela pequena porcentagem de ancestralidade indígena apontada pelo exame imediatamente me levou a uma linhagem que eu já conhecia através da história da minha família.
Desde muito pequena eu ouvia dizer que a mãe de minha bisavó materna era indígena.
Mais tarde, quando comecei a pesquisar seriamente minha genealogia, levei em consideração também a região onde minha bisavó havia nascido e os caminhos percorridos por seus antepassados. Foi assim que minhas pesquisas me conduziram ao povo Kaingang.
Naturalmente, um resultado de DNA não pode me dizer que aqueles 2% vieram especificamente dela, nem substituir documentos, genealogia ou pesquisa histórica.
Mas, para mim, aquela informação acrescentou mais uma peça a um quebra-cabeça que eu já montava havia muitos anos.
E despertou outra curiosidade.
Eu não queria saber somente que havia ancestralidade indígena em minha família.
Queria saber de qual povo.
Quando uma origem ganha um nome
Descobrir os Kaingang mudou a maneira como eu olhava para aquela parte da minha ancestralidade.
Não se tratava simplesmente de uma palavra genérica indígena, perdida entre tantos galhos de uma árvore genealógica.
Havia um povo.
Havia uma história.
Havia territórios, língua, organização social, conhecimentos e uma maneira própria de compreender o mundo.
Em uma pequena reunião em minha casa, há algum tempo, eu conversava com algumas amigas de minhas filhas quando, por alguma razão, o assunto chegou à ancestralidade e aos exames de DNA.
Contei um pouco sobre minhas pesquisas e mencionei minha origem indígena.
Uma das moças imediatamente comentou:
“Eu também sou descendente de indígenas.”
– Sem pensar muito, perguntei:
“Qual tribo?”
– Todas pareceram curiosas e acharam graça na rapidez da minha pergunta.
– A própria moça riu:
“Ahhh, isso eu não sei! Mas vou perguntar à minha mãe. Ela deve saber alguma coisa. Agora fiquei curiosa, quero saber de qual tribo eu venho!” 😂
Hoje eu provavelmente faria a pergunta de outra maneira:
De qual povo?
Foi uma conversa informal, dessas que surgem espontaneamente quando pessoas amigas estão reunidas. Mas nunca esqueci aquele momento.
Porque uma palavra que até então parecia suficiente, indígena, de repente já não bastava.
Havia surgido uma pergunta.
E conhecendo bem o poder que uma pergunta pode exercer sobre uma pessoa curiosa, gosto de imaginar que ela tenha guardado aquela consigo.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Quando comecei a conhecer os Kaingang

Quanto mais pesquisava, mais compreendia que conhecer aquela parte da minha ancestralidade exigia muito mais do que localizar um nome numa árvore genealógica.
Os Kaingang pertencem à família linguística Jê, do tronco Macro-Jê, e sua presença histórica está profundamente ligada ao Sul do Brasil.
Entre os aspectos que mais despertaram minha curiosidade estava a organização tradicional em duas metades, Kamé e Kairu.
Em sua cosmologia, essas metades aparecem relacionadas a princípios distintos e complementares. Kamé é associado, entre outros elementos, ao sol, ao dia, à força, à persistência e às formas compridas; Kairu, à lua, à noite, ao movimento, à agilidade e às formas arredondadas. Não se trata simplesmente de escolher um lado ou outro: a complementaridade entre as duas metades atravessa diferentes dimensões da organização social e da maneira Kaingang de classificar o mundo.
Quando li sobre isso, pensei novamente em minha bisavó.
Ela tinha uma preocupação muito forte com equilíbrio e reciprocidade. Em suas atitudes cotidianas, parecia existir a ideia de que as coisas precisavam encontrar alguma espécie de correspondência para fazer sentido. Não posso afirmar que esse traço dela tivesse origem direta na cultura Kaingang. Mas posso dizer que, quando conheci melhor esse princípio de complementaridade, lembrei-me dela. E isso começou a acontecer outras vezes durante minhas pesquisas.
A relação dos Kaingang e de seus ancestrais Jê com as florestas de araucária, por exemplo, é antiga e profunda. Pesquisas históricas, etnográficas e arqueológicas apontam uma convivência milenar dessas populações com esse ambiente, no qual a araucária ocupa lugar importante não somente na alimentação, através do pinhão, mas também na construção histórica e simbólica do território.
Novamente, minha memória voltou para minha bisavó.
Lembrei-me do profundo respeito que ela tinha pelos alimentos, especialmente pelos grãos, raízes e sementes.
Lembrei-me de seu hábito de plantar, guardar sementes e observar os ciclos das árvores.
Isso prova que tais hábitos vieram diretamente de seus ancestrais Kaingang?
Não.
E penso que seria leviano de minha parte afirmar isso.
Mas descobrir essas relações muitos anos depois fez com que eu olhasse para algumas lembranças da infância com outros olhos.
Penso que essa é uma das partes mais fascinantes da pesquisa genealógica: às vezes encontramos respostas; outras vezes encontramos apenas novas maneiras de formular nossas perguntas.
O que nenhuma porcentagem consegue medir
E então volto à minha bisavó.
Porque, muito antes de eu conhecer palavras como genealogia, ancestralidade genética ou qualquer porcentagem de DNA, eu a conheci.
Convivi com ela.
Foi com minha bisa que aprendi a bordar.
Comecei aos sete anos e, por volta dos quatorze, já tinha um enxoval completo, todo bordado à mão.
Naquela época, naturalmente, eu não compreendia o valor que aquelas horas passadas ao lado dela teriam para mim tantos anos depois.
Hoje não tenho aqueles bordados.
Mas tenho as mãos dela na minha memória.
Tenho seus ensinamentos.
Tenho os gestos que observei.
Tenho lembranças que nenhum laboratório seria capaz de colocar em uma porcentagem.
Também me lembro do carinho extraordinário que ela tinha pelos animais.
Às vezes, quando penso nela, ainda consigo enxergar aquela cena.
Minha bisa cercada por gatos, cães, tartarugas, papagaios, periquitos, pardais…
E a araponga podia gritar o dia inteiro nos nossos ouvidos.
Minha bisavó parecia continuar em paz. 😂
Eu, criança, ficava encantada observando tudo aquilo.
Hoje percebo que muitas coisas que fazem parte da minha maneira de viver também foram construídas durante aqueles anos.
Minha atenção às mudanças do tempo.
Observar se vai chover.
As fases da lua.
Meu respeito pelas plantas.
O prazer de andar descalça na terra, na relva ou na areia.
Os chás que aprendi a reconhecer como parte dos costumes familiares.
A mandioca, o milho, os temperos.
Os benzimentos e outros saberes populares que atravessaram gerações.
Minha tendência a prestar atenção em coisas pequenas que muitas pessoas talvez nem percebam.
Seria fácil olhar para tudo isso e declarar: “Está no meu DNA.”
Mas hoje penso justamente o contrário.
Não preciso que esteja.
Algumas heranças chegam pelos genes.
Outras chegam pelas mãos.
Pelas palavras.
Pela comida.
Pelos hábitos.
Pelas histórias repetidas dentro de casa.
Pelo modo como uma criança observa uma mulher mais velha cuidar de uma planta, de um animal, de uma semente ou de outra pessoa.
E é aí que aqueles 2% ganham, para mim, outra dimensão.
Eles não medem o tamanho da presença indígena em minha vida.
São uma estimativa genética.
A presença da minha bisavó pertence a outra medida.
As asas
Acho que agora compreendo por que, naquele início de noite, olhei para aquelas duas enormes formas nas nuvens e pensei imediatamente nela.
Eu havia passado horas escrevendo sobre ancestralidade.
Pouco depois, levantei-me da cadeira, saí de casa e olhei para o céu.
Ali estavam aquelas formas que meus olhos transformaram em duas grandes asas abertas.
Não sei o que eram além de nuvens.
Também não preciso saber.
Naquele instante, foi assim que as senti: como se, de alguma maneira impossível de explicar, minha bisavó dissesse:
“Eu estou aqui. E aquilo que você carrega de mim é real.”
Não necessariamente nos 2%.
Não somente no sangue.
Mas na menina de sete anos que se sentava para aprender a bordar.
Na mulher que ainda observa o céu antes da chuva.
Naquela que gosta de sentir a terra sob os pés.
Na curiosidade que continua perguntando de onde vieram determinadas histórias, determinados hábitos e determinadas maneiras de olhar para o mundo.
Naquela noite, pensei que ancestralidade não pertence somente ao passado.
Às vezes, ela continua caminhando conosco de formas muito discretas.
E, de vez em quando, basta olhar para o céu para lembrar que algumas heranças são grandes demais para caber numa porcentagem.
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Para conhecer um pouco mais
CRÉPEAU, Robert R. Mito e ritual entre os índios Kaingang do Brasil meridional. Horizontes Antropológicos, 1997.
The Kaingang perspectives on land and environmental rights in the south of Brazil. Ambiente & Sociedade.
BRANCO, Carlos Frederico. As araucárias na Terra Indígena de Mangueirinha: territórios, existências e resistência Kaingang. Dissertação de Mestrado, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2021.
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