Reaparecer

Há momentos em que acreditamos que precisamos recomeçar.
Recomeçar a estudar.
Recomeçar a criar.
Recomeçar a cuidar de nós mesmos.
Recomeçar a fazer planos.
Como se tudo aquilo que fomos um dia tivesse desaparecido e fosse necessário construir uma nova pessoa a partir do zero.
Recentemente, ao retomar um antigo hábito, percebi que determinada parte de mim não havia desaparecido como eu imaginava.
Ela estava silenciosa.
Foi então que comecei a pensar em quantas coisas julgamos ter perdido simplesmente porque passamos muito tempo sem visitá-las.
A vida acontece.Chegam as responsabilidades, o trabalho, a família, as preocupações e tantas urgências que aquilo que um dia nos encantava começa, pouco a pouco, a ocupar espaços cada vez menores. Não necessariamente porque deixou de ser importante.
Às vezes, outras coisas simplesmente precisaram ocupar aquele lugar.
E o tempo passa.
Um interesse fica adormecido. Uma habilidade deixa de ser exercitada. Uma vontade antiga é colocada numa gaveta. Algo que fazia parte de nós vai ficando tão distante que começamos a acreditar que já não nos pertence.
Até que um dia acontece alguma coisa pequena.
Abrimos novamente um livro.
Voltamos a escrever.
Pegamos um lápis, uma agulha, um pincel, uma câmera ou um instrumento.
Retomamos um estudo.
Preparamos uma receita que não fazíamos havia anos.
Escutamos uma música esquecida.
E alguma coisa se movimenta por dentro.
Há um reconhecimento. É como encontrar alguém que não víamos há muito tempo e, apesar das mudanças, reconhecer imediatamente alguma coisa familiar naquele rosto.
É nesse momento que percebemos: não precisamos aprender tudo novamente.

O que reaparece também encontra uma nova pessoa

O que reaparece, porém, nem sempre pode ocupar exatamente o mesmo lugar ou assumir a mesma forma que teve um dia.
O tempo passou também por nós. O corpo mudou, as circunstâncias mudaram, outras responsabilidades chegaram e aquilo que antes fazíamos com facilidade pode hoje exigir adaptações.
Reconhecer isso não significa desistir. Significa partir da pessoa que somos agora, e não exigir dela que reproduza a pessoa que fomos aos vinte anos.
Algumas coisas poderão ser retomadas quase do ponto em que ficaram. Outras precisarão de treino, paciência ou de uma nova maneira de serem feitas. E haverá também aquelas que pertencem definitivamente a outra fase da vida.
Nem tudo precisa reaparecer.Mas existem vontades que, quando voltam, trazem consigo uma sensação difícil de ignorar.
Não somos mais quem éramos, e nem precisamos ser.
A pessoa que retorna a um antigo interesse traz consigo experiências que sua versão mais jovem ainda não possuía. Algumas foram bonitas. Outras deixaram marcas. Todas participaram, de alguma maneira, de quem chegou até aqui.
Por isso, certas retomadas não são tentativas de voltar no tempo.
São oportunidades de trazer para o presente algo que sempre nos pertenceu.
Pode ser a criatividade.
Pode ser a curiosidade.
Pode ser uma habilidade esquecida.
Pode ser um sonho que mudou de forma.
Pode ser simplesmente uma maneira de olhar para o mundo que ficou escondida debaixo das obrigações.

O que as raízes ainda podem alimentar

Penso que algumas partes de nós se parecem com raízes que permaneceram debaixo da terra durante uma longa estação.
Durante algum tempo, quase não percebemos que estão ali. A superfície muda, as estações passam e outras coisas ocupam nossa atenção.
Mas as raízes permanecem.


Não para reproduzir exatamente a árvore de outra época, mas para alimentar aquilo que ainda pode brotar.
Talvez por isso reencontrar uma antiga vontade possa despertar tanta alegria. Não se trata necessariamente de reviver o passado, mas de descobrir o que ainda podemos fazer com aquilo que ele deixou em nós.
É claro que existem limites.
Já não temos vinte anos. O corpo pode pedir outro ritmo, as circunstâncias podem impor outras condições e algumas coisas talvez já não sejam possíveis da maneira como foram um dia.
Mas reconhecer nossos limites não significa entregar a eles todas as possibilidades.
Podemos adaptar.
Podemos aprender novamente aquilo que esquecemos.
Podemos fazer de outra maneira.
E podemos descobrir que determinadas coisas, justamente porque agora carregamos outras experiências, adquiriram um significado que não possuíam antes.

Quando um propósito aponta para o amanhã

Talvez seja aí que o propósito adquira tanta importância.
Ter um propósito não significa possuir uma grande missão ou realizar algo extraordinário.
Um propósito pode caber num projeto esquecido, num estudo interrompido, numa habilidade que desejamos recuperar ou em alguma coisa que queremos construir para nós ou para alguém que amamos.
Ele não elimina o cansaço, não devolve vinte anos ao corpo e não torna tudo possível.
Mas pode nos lembrar por que ainda vale a pena usar as forças que temos.

Um propósito cria futuro.

Quando alguma coisa ainda nos chama para amanhã, existe movimento. Existe curiosidade. Existe uma razão para continuar cultivando aquilo que permanece vivo em nós.
Talvez reaparecer seja também isso: não tentar voltar a ser quem fomos, mas permitir que antigas raízes alimentem alguma coisa nova.
Não precisamos reconstruir do zero tudo aquilo que um dia fomos.
Podemos olhar para o que permaneceu, reconhecer o que ainda nos pertence e transformar o que temos agora em matéria para continuar vivendo.
Não é preciso voltar a ser quem fomos.
Existe algo muito mais interessante a fazer: reencontrar aquela pessoa e permitir que ela conheça quem nos tornamos.
Olhar para ela com a ternura que o tempo ensina e dizer:

Você não desapareceu.

Eu voltei para buscar você.

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