O preço da inocência: quando a malandragem encontra a boa-fé

Dizem que o tempo nos traz sabedoria, mas esquecem de dizer que, até chegarmos a ela, podemos pagar um preço alto, muitas vezes em parcelas de ingenuidade.
Há dias em que as dores no corpo me fazem parar. E é justamente no silêncio do meu recanto que a minha mente viaja no tempo.
Recentemente, fiquei pensando em quantas vezes fui enganada porque presumi que as outras pessoas agiam movidas pela mesma boa-fé que eu.
Eu acreditava na palavra, na reciprocidade, no respeito.
Se alguém me dizia alguma coisa, minha primeira reação não era procurar uma segunda intenção escondida atrás da primeira. Eu partia do princípio de que aquela pessoa estava sendo sincera.
Hoje sei que nem sempre era.
Mas essa maneira de olhar para o mundo não nasceu na vida adulta. Ela vem de muito antes, das minhas raízes, da menina que um dia fui.
Às vezes, quando penso nela, sinto vontade de voltar no tempo.
Se pudesse encontrá-la, talvez segurasse delicadamente os seus ombros e dissesse:

“Abra os olhos. Continue sendo boa, mas aprenda a colocar limites. Nem todo mundo que chega sorrindo merece receber as chaves da casa.”

Mas será que eu gostaria realmente de retirar daquela menina a sua capacidade de confiar?
Penso que não.
Talvez eu quisesse somente lhe ensinar uma coisa que demorei muitos anos para compreender:

bondade também precisa de discernimento.

Quando esperteza e malícia deixam de ser a mesma coisa

Com o tempo, também aprendi que esperteza e maldade não são sinônimos.
Existem pessoas de raciocínio rápido, capazes de perceber uma situação quase instantaneamente, improvisar, encontrar saídas e compreender o ambiente ao redor com uma facilidade admirável.
Eu sempre fui um pouco diferente.
Enquanto algumas pessoas pareciam chegar com o bolo pronto, eu ainda estava preparando a farinha.
E isso não significa necessariamente ser menos inteligente. Existem diferentes maneiras de compreender o mundo, de resolver problemas e de reagir diante deles.
A rapidez pode vir acompanhada de generosidade, humor, espontaneidade e um coração imenso.
O problema nunca esteve em ser esperto.
Está no que fazemos com a nossa esperteza.
Porque existe também aquela habilidade usada para manipular, omitir, representar e encontrar a vulnerabilidade alheia para transformá-la em vantagem própria.
E essa foi uma diferença que levei bastante tempo para aprender.
Durante muitos anos, imaginei que a maldade seria facilmente reconhecível.
De alguma forma, esperava que ela viesse acompanhada de sinais.
Não vem.

Quando a inocência também pode ser uma representação

Algumas das pessoas mais habilidosas em tirar vantagem dos outros sabem parecer frágeis, inocentes, bem-intencionadas ou incapazes de prejudicar alguém.
E talvez tenha sido essa uma das descobertas mais desconfortáveis que o tempo me trouxe:

nem toda inocência é inocente.

Para alguém acostumado a agir de boa-fé, pode ser difícil imaginar que outra pessoa esteja cuidadosamente representando justamente aquilo que nós somos de maneira espontânea.
Demorei para perceber algumas dessas representações.
Demorei.
Mas percebi.
E, quando finalmente enxergamos determinadas coisas, existe a tentação de olhar para trás e perguntar:
Como não vi antes?
Hoje procuro fazer outra pergunta:
Como eu poderia reconhecer aquilo que ainda não havia aprendido a identificar?
O conhecimento que possuo agora foi construído também a partir das situações que um dia não soube compreender.
Foram elas que me ensinaram a observar as entrelinhas.
A não confundir palavras bonitas com intenções bonitas.
A perceber que idade não é sinônimo de caráter ou sabedoria.
E, principalmente, a prestar mais atenção à distância que às vezes existe entre aquilo que uma pessoa diz e aquilo que ela repetidamente faz.

Quando a inocência aprende a colocar fechaduras

Voltar no tempo eu não posso.
Mas o próprio tempo, na sua infinita capacidade de transformar pessoas, encarregou-se de fazer a sua alquimia em mim.
Demorou.
Custou lágrimas, decepções e algumas cicatrizes.
Mas a lição encontrou o seu lugar.
Hoje continuo acreditando nas pessoas. Só já não acredito da mesma maneira.
Não quero viver procurando intenções escondidas em cada gesto, desconfiando de cada aproximação ou imaginando que toda gentileza esconde algum interesse.
Isso também seria uma prisão.
Não quero uma fortaleza ao redor de mim.
Prefiro uma porta.
Portas podem permanecer abertas.
Podem receber pessoas.
Mas também possuem fechaduras.
E, principalmente, alguém do lado de dentro decide quem recebe a chave.
Foi isso que os anos me ensinaram.
Aprendi a silenciar quando necessário.
Aprendi a observar antes de reagir.
Aprendi que dizer “não” não transforma uma pessoa boa em uma pessoa má.
Aprendi que estabelecer limites não é abandonar a generosidade.
E aprendi que continuar acreditando no bem não significa entregar a qualquer pessoa o direito de decidir o que fazer com a minha boa-fé.

O que a malandragem não conseguiu levar

Ao recolher os pedaços deixados pelas rasteiras da vida — algumas vindas de pessoas próximas, outras de completos desconhecidos — percebo que a malandragem pode até vencer no curto prazo.
Ela pode conseguir a vantagem.
Pode enganar.
Pode levar alguma coisa que não lhe pertencia.
Pode fazer a pessoa de boa-fé sentir-se tola por algum tempo.
Mas existe uma vitória que não pretendo entregar a ela.

A de decidir quem eu me torno depois de ter sido enganada.

Se todas as decepções me transformassem numa pessoa incapaz de confiar, cada uma delas teria levado muito mais do que aquilo que conseguiu arrancar de mim naquele momento.
Teria levado também uma parte da minha natureza.
Hoje penso que discernimento não significa esperar o pior das pessoas.
Significa aprender a enxergá-las com mais clareza.
Há quem mereça entrar.
Há quem deva permanecer do lado de fora.
Há quem pareça confiável e não seja.
E há pessoas maravilhosas que não deveriam pagar pelo comportamento daquelas que vieram antes delas.
Talvez essa seja uma das maiores diferenças entre a mulher que sou e a menina que um dia fui.
Eu não diria mais a ela:
“Pare de confiar.”
Diria:
“Continue confiando. Mas observe. Escute. Aprenda. E nunca entregue a outra pessoa a responsabilidade de proteger os limites que são seus.”
Meu coração continua sendo um lugar de afeto.
Só que agora existe uma porta.
E a chave está comigo.
Não sei se isso significa que nunca mais serei enganada. Provavelmente não.
Nenhuma quantidade de experiência nos torna imunes às intenções dos outros.
Mas existe uma diferença importante entre viver de olhos fechados e escolher continuar olhando para o mundo sem precisar fechá-los para tudo aquilo que ainda existe de bom.
A paz que encontro hoje não vem de ter aprendido a vencer malandros e malandras no próprio jogo.
Não quero jogar esse jogo.
Ela vem de saber que posso reconhecer melhor certas atitudes, estabelecer limites e me afastar quando necessário sem precisar transformar a minha natureza para fazer isso.
Talvez essa tenha sido a minha verdadeira virada de jogo:

aprender a enxergar sem deixar que aquilo que vi me obrigasse a fechar os olhos para o que ainda merece ser visto.

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